sexta-feira, 15 de outubro de 2010

answer.


Ah, menina, o que foi que foi que aconteceu com você?
O que foi que fizeram com você?



Eu não sei, eu não entendo. Acho que roubaram a minha alegria. Porque... foi tudo uma farsa, sabe? A primavera, o vento... esperei tanto por essa margarida, e veja só. Atrofiada. Aleijada. Chorei três horas, depois dormi dois dias. E parece incrível ainda estar viva quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total. Até a próxima morte, que qualquer nascimento pressagia. Embora eu saiba que não haverá vida nova por bastante tempo. Agora, só há uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça. Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesma me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. "Não queria fazer mal a você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada." Por que o Zen de repente escapa e se transforma em Sem? Sem que se consiga controlar...

Adaptado de Caio F. de Abreu.

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